A defesa pessoal está cheia de certezas. Há quem garanta que determinada arte marcial não funciona na rua, quem diga que os desportos de combate criam hábitos errados, quem afirme que só o treino por cenários prepara verdadeiramente alguém para a violência real e quem assegure que, perante uma faca, existe uma resposta certa. Outros apresentam o seu sistema como mais realista, mais simples, mais brutal, mais científico ou mais eficaz do que todos os restantes. O curioso é que quase todos conseguem construir argumentos persuasivos em defesa daquilo que fazem, e é precisamente aí que começa o problema.
Quanto mais se estuda a violência, o comportamento humano e a própria defesa pessoal, mais difícil se torna acreditar em respostas absolutas. Há conhecimento útil em muitos lugares: nas artes marciais tradicionais, nos desportos de combate, nos sistemas modernos de defesa pessoal, na psicologia, na criminologia, na fisiologia do stresse, na comunicação, na tomada de decisão e na experiência acumulada de quem passou muitos anos a observar pessoas, conflitos e situações reais. Também existem ideias fracas, exageros, mitos e soluções pouco realistas em praticamente todas essas áreas. Não há nada de extraordinário nisso. Nenhuma disciplina humana está imune ao erro, à moda, à tradição ou à tendência para aceitar mais facilmente aquilo que confirma as nossas próprias convicções.
Um problema, não um método
Talvez uma das primeiras coisas que devêssemos aceitar seja esta: a defesa pessoal não é um método, é um problema. E é um problema extraordinariamente variável. Uma situação pode começar numa discussão aparentemente banal, numa invasão persistente do espaço pessoal, num assédio, numa tentativa de roubo, num conflito familiar ou numa agressão súbita sem aviso suficiente para pensar. Pode haver uma pessoa ou várias, pode existir uma arma, podemos estar sozinhos ou acompanhados por alguém que precisamos de proteger e podemos ter espaço para sair ou estar fisicamente encurralados. Sobretudo, podemos reconhecer o perigo suficientemente cedo para evitar o confronto ou aperceber-nos dele apenas quando já estamos dentro da situação.
Perante esta diversidade, torna-se difícil aceitar que uma única escola, um único sistema ou uma única sequência de técnicas possa oferecer respostas completas. Ainda assim, as respostas simples vendem melhor, e nas redes sociais vendem melhor ainda. É mais fácil promover “as técnicas que podem salvar a tua vida” do que explicar que, muitas vezes, a decisão mais importante acontece antes de existir qualquer contacto físico. É mais impressionante mostrar um desarmamento de faca do que falar durante vários minutos sobre distância, comportamento, comunicação, posicionamento, reconhecimento precoce do perigo e oportunidade de fuga. Também compensa mais apresentar uma técnica impecável do que admitir que, numa situação real, pessoas treinadas podem hesitar, perder o equilíbrio, interpretar mal uma intenção, falhar uma ação que executaram centenas de vezes ou simplesmente deparar-se com uma situação para a qual não existe uma boa resposta.
A certeza vende bem nas redes sociais
As redes sociais amplificaram este problema porque o próprio formato favorece a certeza. Um vídeo curto precisa de prender a atenção depressa, e uma afirmação absoluta prende melhor do que uma explicação condicionada. “Esta técnica nunca funciona”, “se fizeres isto numa situação real estás morto”, “é por isso que o teu sistema falha” ou “esta é a única resposta que funciona” são frases perfeitas para alguns segundos de vídeo. Têm impacto, criam oposição e convidam ao comentário. O problema é que a violência real raramente cabe numa frase destas. Quase tudo depende do contexto, da distância, da surpresa, das capacidades de cada pessoa, da intenção do agressor, do ambiente e de uma quantidade de variáveis que normalmente desaparecem quando a prioridade é produzir conteúdo que possa ser consumido em poucos segundos.
O especialista de feed
Foi assim que surgiu uma figura cada vez mais comum: o especialista de feed. É alguém que parece saber tudo porque fala com segurança, publica frequentemente, comenta qualquer vídeo que aparece e raramente hesita. Pode ter competência real, evidentemente, mas também pode simplesmente ser muito hábil a comunicar, a editar vídeos, a compreender o funcionamento das plataformas e a construir uma personagem cativante. As duas coisas não são equivalentes. Um número elevado de seguidores não transforma uma opinião em evidência, um vídeo viral não valida uma técnica e uma demonstração bem filmada não prova que a mesma resposta funcionará perante resistência, surpresa, medo, dor ou caos.
Isto não significa que os influenciadores ou os professores que utilizam redes sociais sejam, por definição, pouco credíveis. Seria cair precisamente no tipo de simplificação que estou a criticar. Há excelentes profissionais a divulgar conhecimento sério através destas plataformas, pessoas que explicam limitações, contextualizam aquilo que mostram e reconhecem quando não sabem. O problema aparece quando a lógica da rede começa a determinar a lógica do ensino e se torna tentador trocar a dúvida pela certeza, a explicação pela demonstração, a complexidade pela frase contundente e a aprendizagem pela construção de autoridade.
O conflito serve esse propósito porque gera atenção. Por isso vemos instrutores a desmontar vídeos de outros instrutores e especialistas a construir parte da sua reputação a explicar porque razão os outros, supostamente, não sabem. A crítica é necessária e saudável; a defesa pessoal precisa dela. Mas há uma diferença importante entre analisar uma ideia e construir uma personagem em torno da destruição das ideias alheias.
Esta dinâmica liga-se a um mecanismo antigo do mercado da defesa pessoal: para convencer alguém de que precisa de uma solução, primeiro é útil convencê-lo de que aquilo que já sabe não serve. Assim aparecem argumentos familiares: aquela arte marcial é demasiado tradicional, aquele desporto tem regras, aquele sistema não considera armas, aquela técnica é demasiado complexa, aquele instrutor nunca esteve numa situação real. Algumas destas críticas podem ser perfeitamente legítimas. Outras são pouco mais do que uma estratégia comercial: primeiro cria-se a dúvida, depois aumenta-se a sensação de vulnerabilidade e, finalmente, apresenta-se a solução, seja ela o método, o seminário, o curso online ou a comunidade que promete resolver aquilo que acabou de ser transformado num problema.
É aqui que vale a pena fazer uma pergunta simples: quem está a criticar uma técnica ou um método está genuinamente a tentar compreender melhor um problema ou está apenas a preparar o terreno para vender a alternativa seguinte? Nem sempre é fácil responder, mas a própria pergunta já nos obriga a olhar para o conteúdo de outra forma.
Sistemas diferentes, forças diferentes
Há excelentes professores de Krav Maga e professores medíocres de Krav Maga. Há praticantes de boxe, judo, jiu-jitsu, wrestling, karate ou Muay Thai que desenvolveram capacidades extraordinariamente úteis num confronto físico, da mesma forma que há praticantes brilhantes dessas modalidades que nunca estudaram prevenção, comportamento predatório, escalada de conflito, comunicação assertiva ou tomada de decisão fora do contexto competitivo. Não existe qualquer contradição nisso, porque uma disciplina pode ser excelente naquilo que pretende desenvolver e, simultaneamente, insuficiente para responder a outros problemas.
Um bom praticante de boxe pode saber gerir distância, pressão, ritmo e impacto de uma forma que muitos praticantes de defesa pessoal nunca chegarão a dominar. Um judoca pode possuir uma compreensão extraordinária de equilíbrio, contacto, projeção e desequilíbrio do adversário. Um praticante de jiu-jitsu pode estar muito confortável numa situação de luta no chão. Da mesma forma, um bom programa de defesa pessoal pode trabalhar de forma muito mais explícita a prevenção, os limites, a comunicação, a tomada de decisão, a evasão ou determinados contextos para os quais o desporto nunca foi concebido. Reconhecer estas diferenças não diminui nenhuma dessas áreas; pelo contrário, permite perceber melhor aquilo que cada uma realmente oferece.
A pergunta errada: qual é o melhor sistema?
Talvez por isso a pergunta “qual é o melhor sistema de defesa pessoal?” seja muito menos interessante do que parece. Melhor para quê? Defender-se de quê, em que contexto, contra quem, com que preparação, com que limitações físicas, com que possibilidade de fuga, com que consequências legais e com quanto tempo para perceber o que está a acontecer? Quando estas perguntas desaparecem e ficam apenas as respostas, começa o dogma. E o dogma é especialmente perigoso numa área em que as circunstâncias mudam mais depressa do que qualquer técnica consegue acompanhar.
Hoje parece-me muito mais credível um professor que reconhece os limites daquilo que ensina do que alguém que apresenta certezas definitivas. Quando alguém afirma que uma técnica funciona sempre, há boas razões para desconfiar. Quando explica que determinada opção tende a funcionar melhor em certas condições, que exige determinadas capacidades, que apresenta riscos e que pode falhar, a conversa torna-se muito mais interessante. Competência não é possuir uma coleção de respostas; é compreender suficientemente bem o problema para perceber quando uma resposta deixa de servir.
Saber não é o mesmo que saber fazer
A defesa pessoal também não deveria transformar as pessoas em especialistas imaginários de violência. Assistir a centenas de vídeos de agressões não torna ninguém automaticamente melhor a reconhecer perigo, da mesma forma que memorizar técnicas não garante capacidade para as executar sob pressão. Treinar movimentos cooperativos não significa que serão reproduzidos contra resistência e falar constantemente sobre violência não significa necessariamente compreendê-la melhor. Pode até acontecer o contrário: podemos começar a interpretar comportamentos normais como ameaças, encontrar padrões onde eles não existem ou desenvolver uma autoconfiança que o treino real nunca justificou.
Há pessoas que consomem horas de conteúdo sobre violência, analisam agressões em câmara lenta e discutem técnicas com enorme convicção sem alguma vez terem sentido resistência séria, contacto físico imprevisível ou a dificuldade de tomar decisões enquanto outra pessoa tenta impor-lhes fisicamente a sua vontade. Isto não invalida o valor da análise, mas lembra-nos de algo essencial: saber comentar violência não é o mesmo que saber lidar com ela, tal como produzir conteúdos sobre defesa pessoal não é necessariamente o mesmo que saber ensiná-la.
Preparação não é medo
Também convém não transformar preparação em medo permanente. Segurança não significa viver assustado, consciência situacional não significa suspeitar de toda a gente e preparação não significa imaginar uma agressão atrás de cada esquina. A finalidade da defesa pessoal deveria ser aumentar a liberdade, não diminuir o mundo. Deveria ajudar-nos a reconhecer mais cedo situações problemáticas, estabelecer limites, tomar melhores decisões, abandonar um local quando ainda é possível fazê-lo e, se tudo isso falhar, possuir algumas capacidades físicas que aumentem as probabilidades de criar uma oportunidade para sair.
Resistir à tentação da tribo
Talvez isto seja menos sedutor do que prometer invencibilidade ou ensinar uma resposta definitiva para cada ameaça, mas é muito mais honesto. E talvez uma das melhores formas de aprender defesa pessoal seja precisamente resistir à necessidade de escolher uma tribo: observar métodos diferentes, treinar com pessoas diferentes, perguntar porque fazemos determinada coisa, testar pressupostos, perceber o que acontece quando existe resistência, distinguir uma demonstração bem produzida de evidência real e aceitar que uma boa ideia pode vir de uma escola com a qual discordamos noutras matérias.
Hoje acrescentaria ainda outra competência a esta aprendizagem: saber distinguir conteúdo de conhecimento. Nem tudo o que é bem filmado é bom ensino, nem tudo o que se torna viral é importante e nem tudo o que parece sólido durante trinta segundos resistiria a uma análise séria durante trinta minutos. A maturidade começa talvez quando conseguimos aprender com uma ideia sem termos de aderir a toda a filosofia de quem a apresenta e quando conseguimos abandonar uma convicção nossa porque a realidade mostrou que ela não era tão sólida quanto gostaríamos.
Nenhum sistema tem o monopólio da realidade, nenhum professor conhece todas as respostas e nenhum influenciador conhece a situação concreta em que um dia poderás encontrar-te. A defesa pessoal não elimina a incerteza; procura apenas dar-nos melhores ferramentas para lidar com ela. Quanto mais aprendemos, mais percebemos que não se trata simplesmente de acumular técnicas para vencer confrontos, mas de compreender pessoas, contextos, decisões, limites, risco, vulnerabilidade e adaptação.
A defesa pessoal não precisa de gurus. Precisa de bons professores, pensamento crítico e menos certezas absolutas. Aprende com todos e não acredites cegamente em ninguém.
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