Porque a segurança pessoal dos nossos filhos começa também por nós, pais e encarregados de educação.
Se és pai, mãe ou encarregado de educação, conheces bem o gesto: todas as manhãs, à porta da escola, deixas o teu filho e confias. Confias nos professores, nos auxiliares, nas regras e nas autoridades. É uma confiança legítima, e é assim que deve ser. Mas essa confiança não dispensa o teu papel: acompanhar, escutar e ajudar o teu filho a desenvolver competências de autoproteção, em colaboração com a escola.
No ano letivo de 2025/26, as equipas do Programa Escola Segura da PSP registaram 4075 ocorrências na sua área de atuação, mais 4,6% do que no ano anterior. Destas, 2898 tiveram natureza criminal, o que corresponde a uma média aproximada de 16 ocorrências criminais por dia de aulas, considerando cerca de 180 dias letivos. Mais de dois terços dessas ocorrências criminais, 68,7%, tiveram lugar dentro dos próprios recintos escolares. Entre os registos contam-se 1426 casos de ofensas corporais, 920 de injúrias e ameaças, um aumento de 18,4% nos crimes de ofensas sexuais e a deteção de 60 armas. São dados relativos à área abrangida pela PSP, e não à totalidade das escolas portuguesas.
Estes números merecem atenção, mas também uma leitura serena. Por si só, não permitem calcular o risco individual de cada aluno, nem distinguir quanto do aumento corresponde a mais situações de violência e quanto pode resultar de alterações na denúncia ou no registo. Ainda assim, recordam-nos algo essencial: a segurança escolar exige um trabalho contínuo de prevenção, acompanhamento e resposta.
Nenhuma instituição, por mais dedicada que seja, consegue estar em todo o lado ao mesmo tempo. Os diretores, os professores, os assistentes operacionais e as forças de segurança desempenham um papel fundamental, mas o recreio, os corredores, o caminho para casa e o mundo digital colocam desafios que não se resolvem apenas com vigilância. Reconhecê-lo é aceitar que a escola e a família têm responsabilidades complementares, e que os jovens precisam de adquirir, progressivamente, competências para os momentos em que não terão um adulto imediatamente disponível.
Quando surge uma situação de perigo, pode existir um intervalo entre o seu início e a intervenção de alguém capaz de ajudar. É nesse intervalo que a preparação pode fazer diferença. Esta possibilidade deve levar-nos a agir com critério: conversar, acompanhar e ensinar respostas adequadas à idade e às circunstâncias, sem transformar o quotidiano numa expectativa permanente de ameaça.
Preparar uma criança para se proteger não significa torná-la responsável pela violência que possa sofrer. A responsabilidade pela agressão pertence a quem a pratica, e cabe aos adultos e às instituições assegurar a sua proteção. A autoproteção acrescenta recursos a essa responsabilidade partilhada.
O que é, afinal, preparar um filho para se proteger
A esta preparação podemos chamar autoproteção: a capacidade de cada pessoa para zelar pela sua própria segurança, antes, durante e depois de uma situação de risco. Nesta abordagem, entendemos a defesa pessoal como um corpo de conhecimentos e competências, e a autodefesa como a sua aplicação concreta perante uma ameaça ou agressão. Ambas integram uma educação preventiva mais ampla, que começa muito antes de qualquer confronto físico.
Preparar o teu filho envolve ensiná-lo a perceber o ambiente, a reconhecer sinais de tensão, a estabelecer limites com voz firme e postura segura, a pedir ajuda cedo e a escolher, sob pressão, uma opção que favoreça a sua segurança. Muitas vezes, essa opção será afastar-se, procurar companhia ou dirigir-se a um adulto de confiança. Comunicar com clareza e reconhecer quando é necessário pedir ajuda são competências úteis, embora não garantam proteção contra uma agressão.
Mas importa também ser honesto contigo: nem sempre essas opções estão disponíveis ou são suficientes. Há situações em que não é possível afastar-se em segurança, em que o diálogo não interrompe a agressão e em que não existe um adulto por perto. Perante uma agressão, pode ser necessário recorrer à defesa física para se proteger. O propósito é interromper a agressão e criar uma oportunidade para escapar, usando apenas o necessário nas circunstâncias e cessando a ação defensiva quando deixar de ser necessária.
Esta preparação deve ser feita com serenidade, critério e respeito pelo desenvolvimento de cada jovem. Não elimina o medo nem garante uma resposta eficaz, mas pode ajudar a reconhecer opções e a agir para se proteger. O objetivo é dar-lhe recursos para preservar a sua segurança, sem alimentar a ideia de que tem de vencer, punir ou provar alguma coisa.
Nada disto é igual aos 8 e aos 15 anos. Uma criança precisa de aprender a dizer «não», a afastar-se de uma situação desconfortável e a procurar um adulto de confiança. Um adolescente pode enfrentar pressões de grupo, conflitos que escalam e situações de ciberbullying que continuam depois de sair da escola. Por isso, o ensino tem de ser adaptado à idade, ao temperamento, às capacidades e às circunstâncias de cada um.
O que podes fazer desde já, em casa
Conversa sem interrogatório. Pergunta pelo que correu bem e pelo que foi difícil, em momentos descontraídos, e ouve mais do que falas. Mostra-lhe que pode contar-te uma situação desconfortável sem receio de ser culpabilizado ou de te desiludir.
Fica atento aos sinais. Alterações de humor, recusa em ir à escola, objetos que desaparecem ou isolamento súbito merecem atenção e diálogo. Procura compreender o que se passa, sem partir imediatamente para uma conclusão.
Ensina a pedir ajuda. Ajuda o teu filho a identificar dois ou três adultos de confiança e garante-lhe que pedir ajuda é uma forma de se proteger. Se a primeira pessoa não o ouvir ou a situação continuar, deve procurar outra.
Articula com a escola. Se houver sinais de intimidação ou agressão, comunica-os e procura saber que medidas serão tomadas e como será acompanhada a situação. Mantém o diálogo e verifica se o teu filho se sente mais seguro.
Fala do mundo digital. O que acontece online também faz parte da segurança pessoal. Conversa sobre privacidade, limites e contactos indesejados, e ajuda-o a perceber quando deve interromper uma interação, guardar provas e procurar apoio.
Cria oportunidades para se preparar. Investir na formação do teu filho em prevenção e autoproteção é apoiar o desenvolvimento da sua autonomia. Procura uma abordagem adequada à idade, que trabalhe a comunicação, a tomada de decisão, o pedido de ajuda e a resposta física quando necessária.
Ao fazê-lo, ajudas o teu filho a crescer com mais recursos para compreender o que se passa à sua volta e cuidar de si. A autonomia constrói-se de forma progressiva, com conhecimento, prática e a certeza de que pode contar com adultos que o escutam e apoiam.
A segurança dos nossos filhos não se delega por inteiro: constrói-se em conjunto, e começa também em ti.









