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9 de março de 2026

Autodefesa Feminina: Consciência, Prevenção e Mais Opções Perante a Violência


Os números divulgados recentemente pelo Observatório deMulheres Assassinadas são difíceis de ignorar. Entre 2002 e 2025, 709 mulheres foram assassinadas em Portugal. No mesmo período, 939 foram vítimas de tentativa de homicídio. Em média, são cerca de 32 mulheres mortas por ano.

Por trás destes números existem histórias interrompidas, famílias devastadas e vidas marcadas pela violência. E existe também um padrão que merece uma reflexão profunda: a maioria destes crimes ocorre dentro de relações de intimidade. Companheiros ou ex-companheiros são responsáveis por grande parte dos homicídios.

Outro dado particularmente inquietante revela que, na maioria dos casos de femicídio, existia violência prévia. E em cerca de 80% das situações essa violência já era conhecida por outras pessoas. Isto significa que estes crimes raramente surgem do nada. Na maior parte das vezes, há sinais, comportamentos e episódios anteriores que indicam que algo está errado. É precisamente neste ponto que começa uma das dimensões mais importantes da autodefesa.

 

Autodefesa começa antes do confronto

Quando se fala em autodefesa, a imaginação coletiva tende a fixar‑se no visível: movimentos, técnicas, respostas físicas que se aplicam num confronto direto. É natural, é o fragmento mais dramático e fácil de imaginar, o que muitos identificam de imediato como "defender‑se". Mas a autodefesa, no seu sentido mais profundo, começa muito antes disso. A componente física é apenas a última linha de resposta. Antes dela existe um conjunto de competências muito mais amplo que envolve consciência, leitura da realidade, capacidade de decisão e gestão emocional.

A autodefesa começa na capacidade de reconhecer sinais de perigo. Começa quando alguém aprende a identificar comportamentos abusivos, atitudes de controlo ou padrões de manipulação emocional que, muitas vezes, surgem muito antes da violência física.

Em muitas situações de violência doméstica, os primeiros sinais aparecem de forma subtil. Ciúmes excessivos, tentativas de controlo, isolamento progressivo da família e dos amigos, críticas constantes ou formas de humilhação emocional. Com o tempo, estes comportamentos podem evoluir para agressões físicas.

Perceber estes sinais e compreender estas dinâmicas pode ser um passo decisivo para quebrar ciclos de violência.

 

A importância da consciência e da informação

Uma pessoa informada tem mais possibilidades de agir mais cedo. Conhecer os sinais de alerta, compreender como a violência pode evoluir dentro de uma relação e perceber quais são os momentos de maior risco permite tomar decisões com mais consciência.

Os dados mostram, por exemplo, que muitos homicídios acontecem quando a mulher decide terminar a relação. Esse momento, que deveria representar um passo em direção à liberdade, pode transformar-se numa fase de maior vulnerabilidade. Ter consciência desta realidade não significa viver com medo. Significa simplesmente estar mais preparada para lidar com situações difíceis.

A autodefesa, neste sentido, não é apenas física. É também psicológica, emocional e estratégica. É a capacidade de olhar para uma situação com clareza e de escolher o caminho que oferece maiores possibilidades de segurança.

 

Redes de apoio salvam vidas

Outro elemento fundamental na prevenção da violência é a existência de redes de apoio. Os dados indicam que em cerca de 80% dos casos de violência existiam pessoas que sabiam do que estava a acontecer. Familiares, amigos, vizinhos ou colegas tinham percebido sinais de que algo não estava bem. Isto mostra que a violência raramente acontece completamente escondida. Muitas vezes existem sinais que podem ser reconhecidos.

Falar sobre o problema, procurar apoio ou partilhar a situação com alguém de confiança pode ser um passo extremamente importante. Nenhuma pessoa deveria enfrentar uma situação de violência sozinha.

 


Onde entra a autodefesa física

Dentro desta visão mais ampla de autoproteção, a autodefesa física tem também o seu lugar. Não é uma solução mágica nem pretende substituir o apoio institucional, social ou legal. Mas pode acrescentar algo importante: mais opções.

Aprender estratégias simples de defesa pessoal pode ajudar a desenvolver maior confiança, melhorar a consciência corporal e aumentar a capacidade de reagir sob pressão. Em muitas situações reais, o objetivo da autodefesa não é vencer uma luta. O objetivo é criar uma oportunidade para escapar. Um movimento simples pode permitir libertar-se de um agarramento, criar espaço e sair rapidamente de uma situação perigosa.

Quando integrada numa abordagem mais ampla de autoproteção, a autodefesa física torna-se uma ferramenta útil dentro de um conjunto maior de recursos.


A dimensão interior da autodefesa

Existe ainda outro espeto importante que muitas vezes passa despercebido. Treinar autodefesa pode contribuir para transformar a forma como uma pessoa se vê a si própria. O treino desenvolve confiança, presença e uma relação diferente com o próprio corpo.

Muitas mulheres que participam em aulas de autodefesa descrevem uma mudança subtil mas significativa na forma como caminham, como se posicionam e como comunicam com o mundo à sua volta. A postura torna-se mais segura. O olhar mais atento. A atitude mais assertiva.

Essa mudança interior tem um impacto real. A forma como nos movemos, como ocupamos o espaço e como comunicamos transmite sinais ao ambiente à nossa volta. E, muitas vezes, a confiança pode funcionar também como um fator de dissuasão.

 

Uma responsabilidade que pertence à sociedade

É importante afirmar algo com total clareza. A responsabilidade pela violência nunca é da vítima. Nenhuma mulher deveria sentir que a sua segurança depende exclusivamente das suas próprias capacidades.

O combate à violência contra as mulheres exige respostas firmes da sociedade. Exige justiça eficaz, prevenção, educação e intervenção junto dos agressores. A autodefesa não substitui essas respostas. Mas pode contribuir para algo muito importante: fortalecer a autonomia, a consciência e a capacidade de escolha.

 

Mais consciência, mais liberdade

A violência contra as mulheres continua a ser uma realidade grave na nossa sociedade. Os números mostram que não se trata de episódios isolados. Por isso, cada passo em direção à informação, à prevenção e ao fortalecimento pessoal pode fazer a diferença.

Autodefesa não significa viver com medo. Significa viver com consciência. Significa compreender melhor o mundo à nossa volta, reconhecer sinais de perigo e desenvolver recursos para lidar com situações difíceis.

No fundo, autodefesa é também isto: reforçar a capacidade de cada pessoa proteger a própria dignidade, a própria liberdade e o próprio direito a viver em segurança. E quanto mais cedo essa consciência começa a ser cultivada, mais caminhos se abrem para viver com confiança e autonomia.


______________________



Se estás numa situação de violência ou conheces alguém que esteja

A violência doméstica não é um problema privado. É um crime. E ninguém tem de enfrentá-lo sozinho.

Se estás em perigo imediato, liga 112.

Se precisas de apoio, informação ou orientação confidencial, podes contactar:

Linha Nacional de Informação às Vítimas de Violência Doméstica
800 202 148
Disponível 24 horas por dia, todos os dias do ano. Chamada gratuita e confidencial.

APAV – Linha de Apoio à Vítima
116 006
Apoio psicológico, jurídico e encaminhamento para serviços de proteção.


Também existem aplicações gratuitas para telemóvel que podem ajudar a encontrar apoio e informação:

Bright Sky Portugal - Uma aplicação gratuita criada pela Fundação Vodafone, em parceria com a Associação para o Planeamento da Família (APF) e com o apoio da Comissão para a Cidadania e Igualdade de Género (CIG). O objetivo é informar, apoiar e orientar pessoas que estejam numa relação abusiva ou que conheçam alguém nessa situaçãoInclui conteúdos informativos, questionários de avaliação de risco e uma lista de serviços de apoio em Portugal.

AppVD – Apoio Contra a Violência Doméstica - É uma aplicação gratuita para smartphones criada pela Comissão para a Cidadania e a Igualdade de Género (CIG), no âmbito de medidas públicas de prevenção e apoio às vítimas. A aplicação reúne, num único lugar, informação atualizada sobre os serviços da Rede Nacional de Apoio a Vítimas de Violência Doméstica e permite localizar facilmente entidades de apoio próximas.


Se conheces alguém que possa estar a viver uma situação de violência, ouve sem julgar, acredita no que te é dito e incentiva a procurar ajuda. O apoio de uma pessoa próxima pode ser um passo decisivo.

Ninguém merece viver com medo. Procurar ajuda pode ser o primeiro passo para recuperar segurança, dignidade e liberdade.



AUTODEFESA.PT



1 de maio de 2025

A Força da Calma: Estratégias para Gerir Conflitos Verbais


Antes de chegares a um confronto físico, a tua melhor defesa começa no teu equilíbrio emocional


Na autodefesa, a verdadeira força não está apenas na capacidade física, mas na habilidade de manteres a lucidez quando tudo à tua volta parece querer desestabilizar-te. 

Muitas situações de violência poderiam ser evitadas se, no momento certo, alguém tivesse conseguido manter o controlo emocional e desarmar o conflito com palavras, em vez de gestos.  

Este artigo foi criado para te ensinar estratégias práticas e eficazes para lidares com pessoas verbalmente agressivas, reforçando a tua segurança pessoal e a tua autoridade emocional.  

Quem domina o seu estado emocional tem uma vantagem enorme — não só na autodefesa, mas em qualquer situação da vida.


Entender o comportamento temperamental

Todos nós, sob stress ou frustração, podemos ter momentos de irritação.  Mas há pessoas que vivem num estado quase permanente de tensão, prontas a interpretar qualquer coisa como um ataque e a reagir com agressividade verbal.  

 Na raiz deste comportamento podem estar vários fatores:

• Orgulho desmedido e vontade de se afirmar;  

• Dificuldade em lidar com emoções intensas;  

• Inseguranças escondidas sob atitudes defensivas;  

• Necessidade constante de provar que têm razão.

Perceber que esta agressividade, muitas vezes, revela conflitos interiores — e não algo pessoal contra ti — ajuda-te a manter a distância emocional e a responder com inteligência.


 A calma como primeira linha de defesa

Evitar o confronto físico é sempre o objetivo principal na defesa pessoal.  Grande parte das agressões começa por discussões mal geridas, onde os ânimos aquecem e a razão se perde.  Aprender a manter uma atitude serena, clara e assertiva permite-te cortar o ciclo do conflito antes que este escale.  A tua capacidade de comunicar com firmeza e tranquilidade é tão relevante como qualquer técnica física que aprendas.


Estratégias práticas para manteres o controlo

1. Não coloques mais lenha na fogueira – Evita argumentar ou contra-atacar. Responder com hostilidade só alimenta a chama do conflito. Respira fundo e mantém uma postura neutra e centrada.  

2. Evita frases que soam como ordens – Dizer “acalme-se” pode soar condescendente e piorar a situação. Opta pela escuta ativa e presença genuína.  

3. Mantém contacto visual sereno e linguagem corporal firme – Olha nos olhos, com tranquilidade, e evita gestos de impaciência. Um tom de voz mais calmo tende a contagiar o outro.  

4. Questiona com empatia – Frases como “Queres explicar-me melhor o que aconteceu?” ou “Percebo que isto te esteja a afetar” demonstram abertura e podem desarmar a agressividade. Reflete o que ouviste: “Então o que sentiste foi…”  

5. Reconhece pontos válidos e valida emoções – Sem concordares com tudo, podes mostrar compreensão: “Entendo que isso te tenha deixado frustrado.”  

6. Amplia a perspetiva – Pergunta com respeito: “Queres ouvir como vejo esta situação?” Partilhar outra visão pode abrir espaço para o diálogo.  

7. Incentiva soluções em conjunto – “Como achas que podíamos resolver isto?” Quando o outro se sente ouvido, tende a baixar a guarda.  

8. Define limites firmes, com respeito – Se o comportamento se tornar tóxico ou descontrolado, protege-te:

   - “Prefiro que falemos noutro momento.”  

   - “Se continuares nesse tom, vou-me embora.”  

   - “Podemos conversar quando for possível fazê-lo com respeito e calma.”

Não tens de permanecer num ambiente emocionalmente hostil. Para te protegeres, saíres com dignidade também é um ato de força.


A serenidade como forma de autoridade

A tua calma é uma força silenciosa — firme, estável, resiliente.  Controlar a tua resposta é uma das maiores expressões de poder pessoal.  Na autodefesa, essa autoridade interior permite-te tomar decisões mais seguras, ler melhor o ambiente e evitar riscos desnecessários.  

Treina a tua mente com a mesma dedicação com que treinas o teu corpo.  Porque a verdadeira autodefesa começa dentro de ti — é na tua serenidade que reside a tua primeira linha de proteção.





Leitura recomendada:



Inteligência EmocionalDaniel Goleman

Considerado um clássico, este livro explora como a inteligência emocional influencia o sucesso pessoal e profissional. Goleman apresenta ferramentas para desenvolver o autocontrolo, a empatia e a gestão das emoções, competências fundamentais para evitar e lidar com confrontos de forma eficaz.

 O que vais encontrar no livro?

- Uma compreensão profunda sobre como as emoções afetam o nosso comportamento.

- Estratégias para desenvolver a autoconsciência e o autocontrolo emocional.

- Técnicas para melhorar a empatia e as habilidades sociais.

📌 Por que é útil para a autodefesa?

Ao desenvolveres a tua inteligência emocional, estarás mais preparado para reconhecer e controlar as tuas reações em situações de stress, evitando respostas impulsivas que possam agravar conflitos.

 

Comunicação Não-Violenta e Resolução de ConflitosMarshall B. Rosenberg

Neste livro, Rosenberg introduz o conceito de Comunicação Não-Violenta (CNV), uma abordagem que promove a empatia e a compreensão mútua. A obra fornece ferramentas para resolver conflitos de forma pacífica e assertiva, habilidades valiosas para quem procura manter a calma e a segurança em situações potencialmente conflituosas.

 O que vais encontrar no livro?

- Princípios da Comunicação Não-Violenta para melhorar a qualidade das relações interpessoais.

- Técnicas para expressar sentimentos e necessidades de forma clara e respeitosa.

- Exemplos práticos de como aplicar a CNV em diferentes contextos de conflito.

📌 Por que é útil para a autodefesa?

A Comunicação Não-Violenta permite-te desarmar conflitos antes que se tornem físicos, promovendo uma comunicação eficaz que pode evitar confrontos e fortalecer a tua presença e autoridade em situações desafiadoras.



Estes livros oferecem-te ferramentas valiosas que complementam a prática da defesa pessoal, ao destacarem a importância do controlo emocional, da comunicação assertiva e da leitura inteligente do comportamento humano. Mais do que reagir fisicamente a uma ameaça, a verdadeira prevenção começa na forma como geres emoções sob pressão e comunicas em situações tensas. A prevenção e o controlo emocional não são apenas medidas auxiliares — são a base de uma autodefesa eficaz, pois permitem-te antecipar conflitos, desarmar tensões e tomar decisões seguras com clareza e firmeza. Ao integrares este conhecimento ao teu treino, desenvolves uma presença mais forte, consciente e preparada para lidar com os desafios do dia a dia.









15 de abril de 2024

Como Manter a Calma em Situações de Conflito

 Descobre como deves atuar em situações potencialmente perigosas sem entrares necessariamente num confronto físico.


Já era de noite quando a Vera Cardoso se apercebeu de que podia estar metida num grande sarilho: ao sair de um pavilhão da Cidade Universitária, em Lisboa, ouviu alguém gritar desesperadamente. Foi quando viu um rapaz de cerca de 14 anos a fugir de um grupo de cinco adolescentes.

Não havia ninguém à distância de um grito, e, consigo, Vera apenas transportava o saco de treino. Tentando deixar transparecer uma segurança que não sentia, Vera olhou cada um dos jovens nos olhos enquanto estes não deixavam de olhar para ela. Dissimuladamente, apertou e desapertou o saco contra o seu corpo para aliviar a tensão que sentia nos músculos, ao mesmo tempo que, também sem o mostrar, respirou fundo algumas vezes para se acalmar e pensar com mais clareza.

Pensou reconhecer um dos jovens: "Eu conheço-te, não é verdade?", perguntou-lhe sorrindo. “Não participaste naquele jogo de basquetebol que nós organizámos há poucas semanas?” Ele murmurou qualquer coisa.

"Bom estivemos agora mesmo a jogar", continuou Vera prudentemente, “mas imagino que este desporto não seja suficientemente duro para valentões como vocês.” Quanto mais ia falando, mais sentia a tensão diminuir, acabando por convencer os rapazes a abandonar o recinto desportivo. Depois, conduziu o jovem ameaçado para o seu carro e levou-o a casa.

Se, por um lado é verdade que Vera teve alguma sorte pelo facto de conhecer vagamente um dos elementos do grupo, o seu bom desempenho nesta situação baseou-se sobretudo num conjunto de técnicas de controlo de  stress aprendido nas aulas de defesa pessoal.

Desde sempre que existem pessoas, como no caso de polícias e seguranças que, nas suas profissões, enfrentam regularmente situações de conflito violento. Na sociedade atual, em que a violência faz parte do quotidiano, é caso para pensar no que se poderá fazer para gerir da melhor forma possível uma situação potencialmente perigosa em que nos possamos encontrar.

A verdade é que caso nos sintamos ameaçados, quer seja por um bêbado na rua ou por um condutor enraivecido, há muito que poderemos fazer para evitar um confronto físico. 

Não deixar de falar. No caso de estarmos perante uma pessoa zangada ou violenta podemos tentar acalma-la falando com ela. Ao fazê-lo de forma que a nossa voz alcance um tom baixo teremos boas hipóteses de mudar aquilo que o outro tenha em mente fazer.

Para além desta técnica nos permitir ganhar tempo, que pode ser utilizado para chamar a atenção de outras pessoas ou para melhor nos posicionarmos física e emocionalmente – sem inflamar ainda mais a agressividade do nosso interlocutor – com um pouco de controlo e habilidade o conflito talvez se possa dissolver.

Ouvir sem discutir. É frequente as pessoas gritarem devido à sua frustração ou medo. Isto pode acontecer nas mais diversas circunstanciam como no caso em que alguém está sob o efeito do álcool, droga ou com problemas emocionais. Nestas alturas pode faltar muito pouco para que elas partam para a violência. A forma desajustada como respondemos a estas situações pode desencadear um confronto bastante desagradável.

Quando se lida com uma pessoa furiosa, não é construtivo assumirmos uma atitude moralista. "Compreendo que se sinta muito zangado com isso" é, frequentemente, melhor resposta que dizer "Não gosto da maneira como está a falar comigo". Outra opção será simplesmente mostrar às pessoas o caminho mais prático: "Se não se acalmar não vou conseguir ajudá-lo".

Manter um tom de voz baixo e sem alterações enquanto se fala pausadamente, utilizando um vocabulário simples, é essencial para se inverter uma situação potencialmente perigosa.

Linguagem corporal apropriada. A nossa postura física pode fazer muito para transformar uma situação de tensão numa situação de violência ou de acalmia. O truque é transmitirmos uma imagem de autoridade, mas não autoritária.

É indispensável evitar as posturas agressivas (cruzar os braços, colocar as mãos nas ancas ou apontar o indicador) e os movimentos bruscos ou repentinos – situações que podem ser mal interpretadas. Dentro do possível procurar transmitir uma imagem de descontração e abertura. Olhar a pessoa nos olhos, mas evitar fazê-lo permanentemente, pois isso poderá parecer-lhe ameaçador.

Se a situação ameaça descambar em violência é melhor afastar-se calmamente sem deixar de olhar para a pessoa. Assim ela não pensará que está a assumir uma atitude de desprezo.

Numa situação de "luta ou fuga", as pessoas ficam tensas e começam a respirar com menor profundidade, fazendo que o oxigénio chegue menos ao cérebro. Esta situação desperta por sua vez uma reação em que as articulações e os músculos trabalham com maior eficiência. Assim, quando nos sentimos em dificuldades, é normal exibirmos uma linguagem corporal mais agressiva, pese embora o facto de nos estarmos a sentir assustados.

Respirar fundo algumas vezes e de forma discreta é uma boa ajuda. Ao fornecermos mais oxigénio ao cérebro, estamos a restaurar a circulação normal e a ajudar os músculos a movimentarem-se com maior à-vontade. E, acima de tudo, ajudamo-nos a nós próprios a pensar com maior clareza e a assumir um domínio mais consciencioso da situação.

Manter a distância. Quando as pessoas estão zangadas, necessitam de uma zona de segurança própria maior que nas outras situações. É aconselhável manter uma distância de pelo menos 1,5m. Se alguém nos quiser atacar, teremos assim mais espaço para nos esquivarmos, empurrarmos o agressor para trás ou aplicar técnicas de autodefesa.

O instinto de muitos homens é de não recuar se alguém lhes encosta a testa à sua. Isso é um erro grave. Por um lado estamos a marcar uma posição que ira conduzir a mais agressividade e por outro lado corremos o sério risco de sofrer uma inesperada e violenta "cabeçada". Uma das chamadas "técnicas sujas" frequentemente utilizada em luta de rua.

Outro ponto importante é evitar tocar ou colocar o braço em volta de um estranho enfurecido, uma vez que isso pode ser interpretado como um ataque.

Manter a distância (e a calma) é particularmente importante quando se conduz. Um grande número de pessoas já foi vítima de situações de violência no trânsito. O melhor a fazer, sempre que façamos algo de errado na estrada é levantar a mão de forma bem visível, pedimos assim desculpa aos outros automobilistas.

Imagem segura. Certificando-nos de que não humilhamos uma pessoa que nos ameaça na frente dos outros pode arrefecer uma situação de pré-confronto.

Um dos rastilhos mais comuns para as situações de violência grave de hoje em dia é quando alguém é impedido de entrar ou expulso de uma discoteca. Quando uma pessoa já bebeu uns copos, de certeza que não vai deixar que o humilhem à frente dos companheiros. E, com gente menos hábil, isso pode levar à violência. Quando alguém tem de ser expulso, é melhor tratar disso longe dos outros. Por exemplo, numa discoteca movimentada o segurança ou o porteiro pode dizer: "Não consigo ouvirNão se importa de vir comigo mais para este lado?"

Numa conhecida discoteca de Lisboa presenciamos a seguinte situação: um indivíduo embriagado estava a provocar alguns distúrbios o que fez com que tivessem de o expulsar. Apesar da confusão os seguranças conseguiram, com alguma habilidade, afasta-lo dos amigos. Então o chefe da segurança explicou-lhe que, como era um cliente regular, voltariam a deixá-lo entrar noutro dia se saísse a bem, mas que, se tivessem de o atirar lá para fora, nunca mais o deixariam entrar. Desta forma, tendo-lhe sido dada oportunidade para escolher por si, o homem acabou por sair voluntariamente.

Saber quando sair. Existem situações das quais as pessoas não conseguem sair pelo diálogo. Nestas circunstâncias uma estratégia de fuga é sempre preferível do que acabar por correr riscos desnecessários. Isto não significa cobardia mas sim que em função da situação (normalmente desproporcional para nós) escolhemos a opção mais inteligente.

No caso em que não existe outra hipótese a não ser lutar para se defender, pode ser utilizada uma estratégia que consiste em – quando o agressor menos esperar – atingi-lo rápida e energicamente com uma sucessão de golpes dirigidos para alvos vitais, como por exemplo: olhos, garganta, testículos e joelhos. A ideia é, no mínimo, fragilizar e confundir o agressor durante uma pequena fração de tempo, criando assim uma oportunidade que nos permita a retirada o mais rapidamente possível do local.

Mas tem em conta que, mesmo em tempos violentos como aqueles em que vivemos, as possibilidades de sermos atacados fisicamente podem ser reduzidas. Se soubermos tomar algumas precauções em termos de prevenção e desenvolvermos uma estratégia de gestão de conflitos apropriada, os riscos serão bem menores.

Não esperes que aconteça algo de perigoso para "exercitares" as tuas atitudes e a maneira como controlas o stress em situações de conflito. É precisamente no dia-a-dia das nossas relações com os amigos, colegas, familiares ou mesmo estranhos, que podemos trabalhar a forma como reagimos aos pequenos conflitos inerentes a todas a relações. Esse investimento também faz parte do nosso crescimento como pessoas e vai colaborar seguramente para nos ajudar, caso algum dia o inesperado aconteça.


Sugestões de Leitura



A comunicação não-violenta é uma leitura essencial para quem deseja melhorar a sua segurança pessoal. Esta abordagem ensina técnicas eficazes de gestão de conflitos de forma pacífica, ajudando a evitar confrontos físicos desnecessários. Ao promover a empatia, permite compreender melhor as motivações e emoções dos outros, o que é crucial para prevenir e desescalar situações de tensão.

Com habilidades de comunicação mais apuradas, torna-se possível identificar e resolver problemas antes que se transformem em conflitos maiores, fortalecendo assim a capacidade de autoproteção.




"Por muito prósperos e felizes que sejamos, haverá sempre momentos na nossa vida em que o conflito será inevitável. Seja no trabalho ou na nossa vida social e familiar, a discórdia, a pressão e a inimizade acabam sempre por se manifestar e gerar em nós sentimentos negativos, de frustração, raiva e vergonha. No entanto, todas estas situações têm potencial para ser uma fonte de aprendizagem e crescimento únicos. Para tal, temos de aprender a lidar com o conflito e a ultrapassá-lo com serenidade.

Neste livro, Dale Carnegie, mestre incontestado do desenvolvimento pessoal e profissional, ensina-nos a abordar estas situações com o tato que exigem, a conhecermo-nos melhor, a controlar as nossas emoções e a compreender o nosso oponente, identificando as suas motivações e objetivos.

A partir de um conjunto de técnicas chave, aprendemos a negociar com eficácia, a preparar argumentos para uma discussão, a defender o nosso ponto de vista e a chegar a compromissos, para que ambas as partes se sintam consideradas e atendidas. Todos teremos de resolver conflitos e lidar com pessoas difíceis ao longo da nossa vida. O ideal é sabermos como fazê-lo."




13 de março de 2019

CRIANÇAS AGRESSIVAS NA ESCOLA

Os comportamentos agressivos em contexto escolar têm vindo a aumentar. A boa notícia é que, há formas de superar esta realidade e aprender a lidar com uma criança agressiva na escola. Saber como agir perante uma criança agressiva tem sido tema recorrente de vários estudos, bem como motivo de preocupação crescente entre pais, professores e outros educadores. Os impulsos agressivos são próprios do ser humano, sendo considerados um aspeto estruturante da personalidade quando geridos em proporções adequadas e com propósitos adaptativos. Com a ajuda da psicóloga Ana Graça vamos compreender melhor esta problemática e descobrir como ajudar as nossas crianças.



FACTOS A RETER SOBRE O COMPORTAMENTO AGRESSIVO NA INFÂNCIA

Há factos que nos fazem pensar e que conseguem explicar de certa forma, o porquê de uma criança ter um certo comportamento.

  • Depende da qualidade dos cuidados no período pré-natal e na primeira infância (0 a 5 anos);
  • A primeira infância é um período crítico para aprender a controlar comportamentos agressivos;
  • Antes dos 3 anos de idade, a maioria dos meninos e das meninas testa utilizar a agressão física;
  • Geralmente, as crianças utilizam agressão física quando estão sob emoções fortes ou como forma de alcançarem aquilo que querem;
  • As raparigas tendem a deixar de utilizar agressão física mais cedo do que rapazes;
  • As raparigas utilizam com mais frequência a agressão indireta (por exemplo, falar mal de um amigo) mais cedo e mais frequentemente do que rapazes;
  • Com o desenvolvimento de habilidades sociais e de linguagem, a maioria das crianças já não utiliza agressão física;
  • Todas as crianças, em algumas fases do seu desenvolvimento, recorrem pontualmente a comportamentos agressivos para lidar com situações de maior ansiedade ou conflito, mas estes comportamentos tendem a desaparecer com o crescimento;
  • Estilos parentais permissivos, inconstantes e negligentes podem contribuir para que a criança adote comportamentos agressivos.


AGRESSIVIDADE NA ESCOLA



A entrada da criança no contexto educacional e o primeiro contacto com os pares, acarretam uma grande expectativa em relação às aptidões e papéis sociais que devem desempenhar.

É no contexto escolar que os comportamentos agressivos se tornam mais evidentes. A criança agressiva na escola exibe um padrão repetitivo e persistente de agressividade, que prejudica os outros e viola as regras sociais.

O seu comportamento caracteriza-se por não dominar os impulsos agressivos, revelar uma atitude positiva perante a agressão e agir como se esta fosse socialmente aceitável. Estes comportamentos disruptivos da criança agressiva na escola dificultam o trabalho a desempenhar por professores e educadores.

A repetição desses comportamentos somada às dificuldades manifestadas pelos professores/educadores em lidar com a agressividade faz com que as condutas inadequadas persistam, prejudicando a aprendizagem e a socialização.

Para além do prejuízo do desempenho académico, a criança agressiva na escola tem também, habitualmente, maiores dificuldades no estabelecimento de relações saudáveis.

Crianças que defrontam e vitimizam os seus colegas e os professores/educadores de forma sistemática e apresentam oposição à realização de tarefas e regras escolares, são frequentemente rejeitadas no contexto escolar, recebendo menor investimento afetivo e académico dos professores/educadores e dos colegas.

Outro aspeto característico da criança agressiva na escola é a rejeição entre pares, ou seja, devido aos comportamentos que adota tem maior probabilidade de vir a ser rejeitada pelos seus colegas.

O problema da agressividade surge associado a uma multiplicidade de fatores, entre as quais as relações estabelecidas na escola; o clima organizacional; o meio no qual a escola se insere; o sistema de gestão da disciplina; as práticas educativas; o insucesso escolar; baixos níveis de tolerância; baixa autoestima; exposição à violência no âmbito familiar; dinâmicas familiares; violência televisiva; imaturidade emocional; ausência de regras e limites em casa.



COMO LIDAR COM UMA CRIANÇA AGRESSIVA NA ESCOLA?



A violência é um problema social e a escola tem um papel fundamental na sua redução através de ações e programas preventivos, idealmente desenvolvidos em parceria com as famílias, envolvendo-as com o problema. Essas ações devem sempre tentar:

1.Garantir que as interações entre crianças pequenas são supervisionadas de perto;

2.Ter normas bem claras, bem estabelecidas e que estejam bem explícitas na sala de aula;

3.Ouvir e dar atenção às reclamações, depoimentos e denúncias dos alunos quando estas se referem a violência;

4.Encorajar a criança a expressar verbalmente as suas emoções e a desenvolver a sua sensibilidade para com os outros;

5.Demonstrar que existem formas não agressivas de se relacionar com os outros e com o meio ambiente;

6.Ajudar a criança a encontrar outras formas de obter o que deseja sem recorrer à agressão;

7.Aplicar sanções adequadas à idade, que promovam aprendizagem (por exemplo, consolar a vítima, compensar por qualquer dano causado, pedir desculpas, etc.);

8.Garantir que a criança não retira benefícios do comportamento agressivo;

9.Reforçar e elogiar os aspetos positivos da criança e os seus sucessos, de forma que se sinta segura e confiante;

10.Reforçar o desenvolvimento de competências sociais em contexto familiar e escolar;

11.Manter uma relação estreita e cooperante com a família, de modo a contribuir para o desenvolvimento harmonioso da criança;

12.Verificar com os responsáveis pelos espaços de recreio e transporte escolar como são tratados os alunos nestes contextos e como decorre a interação entre eles;

13.Desenvolver projetos educativos que promovam a cidadania, o respeito pelo outro e a não-violência;

14.Promover o desporto escolar, especialmente os desportos de equipa;

15.Facilitar o acesso a jogos didáticos que promovam boas práticas.


Como lidar com crianças agressivas e conflituosas

Quando as contendas entre crianças são frequentes, o que podem os pais fazer? Como se consegue educar uma criança com comportamento agressivo?


Os pequenos e as crianças de idade pré-escolar lutam frequentemente pelos brinquedos. Algumas crianças são recompensadas involuntariamente pelo seu comportamento agressivo. Por exemplo, pode ser que uma criança empurre a outra, atirando-a ao chão e apanhe o seu brinquedo. Se a outra criança chorar e se afastar, a criança agressiva sente-se vitoriosa, já que conseguiu o brinquedo. É importante identificar se esse padrão está acontecendo nas crianças agressivas.


O QUE SE DEVE FAZER COM AS CRIANÇAS AGRESSIVAS

Quando as lutas são frequentes, isso pode ser um sinal de que a criança tem outros problemas. Por exemplo, pode estar triste ou alterada, ter problemas para controlar a coragem, ter sido testemunha de violência ou ter sido vítima de abuso no cuidado diurno, na escola ou mesmo em casa. As investigações têm demonstrado que as crianças que são fisicamente agressivas em idade muito pequena, têm tendência a continuar com este comportamento quando crescerem. Os estudos também demonstraram que as crianças que são expostas à violência e à agressão repetidamente através da televisão, vídeos e filmes, agem de forma mais agressiva.

Se uma criança pequena tem problemas persistentes com a ação de bater e de morder, ou exibe um comportamento agressivo, os pais devem procurar ajuda profissional de um pediatra, neuro-pediatra, psicólogo ou mesmo um psiquiatra de crianças e adolescentes ou de outro profissional de saúde mental que se especialize na avaliação e tratamento dos problemas do comportamento de crianças pequenas.

- A intervenção precoce é muito mais efetiva. Não espere que a criança comece a mostrar um comportamento mais agressivo. Intervenha logo que observar que ela se sente frustrada ou que se altera com facilidade.

- Quando as crianças pequenas bulham com frequência, controlem-nas mais de perto.

- Se uma criança bater em outra criança, separe rapidamente os dois. Console e ampare de imediato a criança que foi agredida.

- Ao bebe que começa a andar (1 a 2 anos), diga-lhe: “Não batas. Dói quando tu bates”.

- A uma criança pequena (de 2 a 3 anos), diga-lhe: “Eu sei que tens coragem, mas não batas”. Isso começa a ensinar-lhe a empatia com as outras crianças.

- Não bata na criança se ela estiver a bater nas outras. Isso a ensinará a utilizar um comportamento agressivo.

- Os pais não devem ignorar ou depreciar as discussões e lutas entre irmãos.

- Ensine-lhes que a agressão não é a forma correta para se conseguir o que se quer. Por exemplo: imaginemos o caso de dois miúdos, um de 6 e outro de 4 anos de idade. O maior está a jogar à bola até que o mais pequeno aparece para se apoderar dela. E ali iniciam-se as brigas e gritos. O pequeno grita e esperneia porque quer a bola. Se interferirmos, exigindo que o maior conceda a bola ao mais pequeno, estaremos a fazer um reforço negativo, que levará o mais pequeno a espernear e a gritar sempre que quiser alguma coisa. 

A psicóloga infantil Adriana Lot Dias, partilha connosco algumas dicas valiosas que nos podem ajudar a controlar e prevenir o comportamento agressivo das crianças.