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13 de março de 2019

CRIANÇAS AGRESSIVAS NA ESCOLA

Os comportamentos agressivos em contexto escolar têm vindo a aumentar. A boa notícia é que, há formas de superar esta realidade e aprender a lidar com uma criança agressiva na escola. Saber como agir perante uma criança agressiva tem sido tema recorrente de vários estudos, bem como motivo de preocupação crescente entre pais, professores e outros educadores. Os impulsos agressivos são próprios do ser humano, sendo considerados um aspeto estruturante da personalidade quando geridos em proporções adequadas e com propósitos adaptativos. Com a ajuda da psicóloga Ana Graça vamos compreender melhor esta problemática e descobrir como ajudar as nossas crianças.



FACTOS A RETER SOBRE O COMPORTAMENTO AGRESSIVO NA INFÂNCIA

Há factos que nos fazem pensar e que conseguem explicar de certa forma, o porquê de uma criança ter um certo comportamento.

  • Depende da qualidade dos cuidados no período pré-natal e na primeira infância (0 a 5 anos);
  • A primeira infância é um período crítico para aprender a controlar comportamentos agressivos;
  • Antes dos 3 anos de idade, a maioria dos meninos e das meninas testa utilizar a agressão física;
  • Geralmente, as crianças utilizam agressão física quando estão sob emoções fortes ou como forma de alcançarem aquilo que querem;
  • As raparigas tendem a deixar de utilizar agressão física mais cedo do que rapazes;
  • As raparigas utilizam com mais frequência a agressão indireta (por exemplo, falar mal de um amigo) mais cedo e mais frequentemente do que rapazes;
  • Com o desenvolvimento de habilidades sociais e de linguagem, a maioria das crianças já não utiliza agressão física;
  • Todas as crianças, em algumas fases do seu desenvolvimento, recorrem pontualmente a comportamentos agressivos para lidar com situações de maior ansiedade ou conflito, mas estes comportamentos tendem a desaparecer com o crescimento;
  • Estilos parentais permissivos, inconstantes e negligentes podem contribuir para que a criança adote comportamentos agressivos.


AGRESSIVIDADE NA ESCOLA



A entrada da criança no contexto educacional e o primeiro contacto com os pares, acarretam uma grande expectativa em relação às aptidões e papéis sociais que devem desempenhar.

É no contexto escolar que os comportamentos agressivos se tornam mais evidentes. A criança agressiva na escola exibe um padrão repetitivo e persistente de agressividade, que prejudica os outros e viola as regras sociais.

O seu comportamento caracteriza-se por não dominar os impulsos agressivos, revelar uma atitude positiva perante a agressão e agir como se esta fosse socialmente aceitável. Estes comportamentos disruptivos da criança agressiva na escola dificultam o trabalho a desempenhar por professores e educadores.

A repetição desses comportamentos somada às dificuldades manifestadas pelos professores/educadores em lidar com a agressividade faz com que as condutas inadequadas persistam, prejudicando a aprendizagem e a socialização.

Para além do prejuízo do desempenho académico, a criança agressiva na escola tem também, habitualmente, maiores dificuldades no estabelecimento de relações saudáveis.

Crianças que defrontam e vitimizam os seus colegas e os professores/educadores de forma sistemática e apresentam oposição à realização de tarefas e regras escolares, são frequentemente rejeitadas no contexto escolar, recebendo menor investimento afetivo e académico dos professores/educadores e dos colegas.

Outro aspeto característico da criança agressiva na escola é a rejeição entre pares, ou seja, devido aos comportamentos que adota tem maior probabilidade de vir a ser rejeitada pelos seus colegas.

O problema da agressividade surge associado a uma multiplicidade de fatores, entre as quais as relações estabelecidas na escola; o clima organizacional; o meio no qual a escola se insere; o sistema de gestão da disciplina; as práticas educativas; o insucesso escolar; baixos níveis de tolerância; baixa autoestima; exposição à violência no âmbito familiar; dinâmicas familiares; violência televisiva; imaturidade emocional; ausência de regras e limites em casa.



COMO LIDAR COM UMA CRIANÇA AGRESSIVA NA ESCOLA?



A violência é um problema social e a escola tem um papel fundamental na sua redução através de ações e programas preventivos, idealmente desenvolvidos em parceria com as famílias, envolvendo-as com o problema. Essas ações devem sempre tentar:

1.Garantir que as interações entre crianças pequenas são supervisionadas de perto;

2.Ter normas bem claras, bem estabelecidas e que estejam bem explícitas na sala de aula;

3.Ouvir e dar atenção às reclamações, depoimentos e denúncias dos alunos quando estas se referem a violência;

4.Encorajar a criança a expressar verbalmente as suas emoções e a desenvolver a sua sensibilidade para com os outros;

5.Demonstrar que existem formas não agressivas de se relacionar com os outros e com o meio ambiente;

6.Ajudar a criança a encontrar outras formas de obter o que deseja sem recorrer à agressão;

7.Aplicar sanções adequadas à idade, que promovam aprendizagem (por exemplo, consolar a vítima, compensar por qualquer dano causado, pedir desculpas, etc.);

8.Garantir que a criança não retira benefícios do comportamento agressivo;

9.Reforçar e elogiar os aspetos positivos da criança e os seus sucessos, de forma que se sinta segura e confiante;

10.Reforçar o desenvolvimento de competências sociais em contexto familiar e escolar;

11.Manter uma relação estreita e cooperante com a família, de modo a contribuir para o desenvolvimento harmonioso da criança;

12.Verificar com os responsáveis pelos espaços de recreio e transporte escolar como são tratados os alunos nestes contextos e como decorre a interação entre eles;

13.Desenvolver projetos educativos que promovam a cidadania, o respeito pelo outro e a não-violência;

14.Promover o desporto escolar, especialmente os desportos de equipa;

15.Facilitar o acesso a jogos didáticos que promovam boas práticas.


Como lidar com crianças agressivas e conflituosas

Quando as contendas entre crianças são frequentes, o que podem os pais fazer? Como se consegue educar uma criança com comportamento agressivo?


Os pequenos e as crianças de idade pré-escolar lutam frequentemente pelos brinquedos. Algumas crianças são recompensadas involuntariamente pelo seu comportamento agressivo. Por exemplo, pode ser que uma criança empurre a outra, atirando-a ao chão e apanhe o seu brinquedo. Se a outra criança chorar e se afastar, a criança agressiva sente-se vitoriosa, já que conseguiu o brinquedo. É importante identificar se esse padrão está acontecendo nas crianças agressivas.


O QUE SE DEVE FAZER COM AS CRIANÇAS AGRESSIVAS

Quando as lutas são frequentes, isso pode ser um sinal de que a criança tem outros problemas. Por exemplo, pode estar triste ou alterada, ter problemas para controlar a coragem, ter sido testemunha de violência ou ter sido vítima de abuso no cuidado diurno, na escola ou mesmo em casa. As investigações têm demonstrado que as crianças que são fisicamente agressivas em idade muito pequena, têm tendência a continuar com este comportamento quando crescerem. Os estudos também demonstraram que as crianças que são expostas à violência e à agressão repetidamente através da televisão, vídeos e filmes, agem de forma mais agressiva.

Se uma criança pequena tem problemas persistentes com a ação de bater e de morder, ou exibe um comportamento agressivo, os pais devem procurar ajuda profissional de um pediatra, neuro-pediatra, psicólogo ou mesmo um psiquiatra de crianças e adolescentes ou de outro profissional de saúde mental que se especialize na avaliação e tratamento dos problemas do comportamento de crianças pequenas.

- A intervenção precoce é muito mais efetiva. Não espere que a criança comece a mostrar um comportamento mais agressivo. Intervenha logo que observar que ela se sente frustrada ou que se altera com facilidade.

- Quando as crianças pequenas bulham com frequência, controlem-nas mais de perto.

- Se uma criança bater em outra criança, separe rapidamente os dois. Console e ampare de imediato a criança que foi agredida.

- Ao bebe que começa a andar (1 a 2 anos), diga-lhe: “Não batas. Dói quando tu bates”.

- A uma criança pequena (de 2 a 3 anos), diga-lhe: “Eu sei que tens coragem, mas não batas”. Isso começa a ensinar-lhe a empatia com as outras crianças.

- Não bata na criança se ela estiver a bater nas outras. Isso a ensinará a utilizar um comportamento agressivo.

- Os pais não devem ignorar ou depreciar as discussões e lutas entre irmãos.

- Ensine-lhes que a agressão não é a forma correta para se conseguir o que se quer. Por exemplo: imaginemos o caso de dois miúdos, um de 6 e outro de 4 anos de idade. O maior está a jogar à bola até que o mais pequeno aparece para se apoderar dela. E ali iniciam-se as brigas e gritos. O pequeno grita e esperneia porque quer a bola. Se interferirmos, exigindo que o maior conceda a bola ao mais pequeno, estaremos a fazer um reforço negativo, que levará o mais pequeno a espernear e a gritar sempre que quiser alguma coisa. 

A psicóloga infantil Adriana Lot Dias, partilha connosco algumas dicas valiosas que nos podem ajudar a controlar e prevenir o comportamento agressivo das crianças. 







1 de março de 2019

28 ESTRATÉGIAS DE SALA DE AULA PARA ALUNOS COM DÉFICE DE ATENÇÃO OU IMPULSIVOS


Um dos grandes desafios para os professores hoje em dia é conseguir gerir turmas de cerca de 30 alunos, em que alguns desses alunos apresentam dificuldades em manter a atenção e/ou revelam excesso de atividade motora e comportamentos impulsivos.


O presente texto reúne algumas ideias e estratégias simples para que os professores consigam lidar com os alunos com Défice de Atenção, isto é, com crianças com dificuldades em manter a atenção durante um longo período de tempo e que estão “sempre com a cabeça na lua”, mas também com os alunos que apresentem comportamentos impulsivos e excesso de atividade motora, ou seja, crianças com dificuldade em manterem-se focados numa só tarefa e que têm “bicho-carpinteiro”.


Ideias e Estratégias  para alunos com Défice de Atenção

• Faça uma pequena pausa e promova a curiosidade (suspense), como por exemplo olhando ao redor antes de colocar uma questão;
• Avise que alguém vai ter que responder a uma pergunta sobre aquilo que está a ser dito;
• Escolha aleatoriamente os alunos para ler/responder a uma questão, de modo a que não consigam prever quando devem estar atentos;
• Utilize o nome do aluno quando colocar uma questão;
• Faça uma pergunta simples ao aluno (não relacionada com o assunto em questão) quando perceber que este está a começar a perder a atenção;
• Crie uma “piada privada” entre si e o aluno, de modo a envolvê-lo novamente na aula;
• Percorra a sala de aula e dê um toque discreto no ombro do aluno enquanto está a ensinar algo importante;
• Percorra a sala de aula e vá tocando discretamente no sítio exato da página que está a ser lido ou discutido no momento;
• Alterne entre atividades físicas e mentais;
• Aumente a novidade das aulas ao usar filmes, cartões (flashcards), trabalhos de grupo;
• Incorpore os interesses dos alunos no planeamento das aulas;
• Dê instruções simples e concretas;
• Ensine aos alunos estratégias de auto-monitorização;
• Utilize uma voz suave para dar instruções.




Ideias e Estratégias para alunos com Comportamentos Impulsivos

• Dê-lhe atenção positiva e reconhecimento tanto quanto possível;
•  Clarifique as regras da sala de aula;
• Estabeleça um sinal entre si e o aluno;
• Crie o hábito de esperar 10 a 15 segundos antes de responder;
• Analise as respostas irrelevantes dadas pelo aluno e procure possíveis relações com a pergunta;
• Peça ao aluno para repetir a pergunta antes de responder;
• Escolha um aluno para ser o “detentor da pergunta” (para repetir a pergunta ao aluno);
• Ao introduzir uma nova matéria, peça aos alunos para fazerem perguntas antes de ser lecionada a matéria;
• Retire da sala de aula toda a estimulação desnecessária;
• Certifique-se que as tarefas propostas são curtas;
• Transmita que a precisão vale mais que a rapidez;
• Utilizando o relógio da sala de aula, diga aos alunos quanto tempo têm para a realização de uma determinada tarefa;
• Peça que os alunos tenham um ficheiro com todos os seus trabalhos completos;
• Incentive o planeamento utilizando com frequência listas, o calendário, tabelas e imagens na sala de aula.

Adaptado de “Suggested Classroom Interventions For Children With ADD & Learning Disabilities”



4 de junho de 2017

Como Explicar um Atentado Terrorista às Crianças


Desta vez um ataque terrorista teve como alvo um público muito jovem. Devem os pais falar sobre isso com os filhos? E como? Apresentamos a opinião de um pedopsiquiatra e alguns psicólogos.


Na passada terça-feira à noite, as 21 mil pessoas que assistiam ao concerto da cantora pop norte-americana Ariana Grande no Manchester Arena, em Inglaterra, foram surpreendidas, no final do espetáculo, por uma forte explosão que vitimou 22 pessoas e deixou outras 59 feridas. Mais um atentado, já reivindicado pelo chamado Estado Islâmico, que se soma a muitos outros nos últimos meses mas este com uma particularidade que o distingue dos demais: desta vez o alvo foram sobretudo crianças (e os pais que as acompanhavam).

Por isso, e pelo facto de o atentado ter ocorrido no final de um concerto de um dos ídolos pop das crianças e jovens, faz com que, provavelmente, as crianças e adolescentes se sintam mais identificadas e estejam mais sensíveis a estas notícias. É também natural que as dúvidas e perguntas em torno deste atentado e vindas desta faixa etária surjam com mais expressão.

A pensar nisso, no concerto desta cantora que está agendado para o dia 11 de junho no MEO Arena, nos receios dos pais e nas eventuais perguntas que possam surgir em casa, apresentamos a opinião de alguns especialistas para ajudar a encontrar respostas para algumas das questões que possam estar a surgir neste momento.

1. Deve-se falar e explicar o terrorismo às crianças e pré-adolescentes? Sim. Esconder informação não deve ser opção.

“Vindo a propósito, os pais podem falar do terrorismo, sem alarmismo”, defende Pedro Pires, pedopsiquiatra do Hospital Garcia de Orta, em Almada. Uma opinião subscrita pela psicóloga clínica Filipa Silva: “Neste momento, a questão da violência e do terrorismo estão na ordem do dia e devem ser discutidas. Não é possível abafar a informação e não parece que esconder informação seja a melhor abordagem”.

2. Como deve ser feita a abordagem? Como se deve explicar o terrorismo? “Há pessoas boas e más”.

OK, deve-se falar sobre estes atentados e sobre o terrorismo às crianças e pré-adolescentes. Mas como? Inês Marques, psicóloga clínica, coordenadora da equipa infanto-juvenil da Oficina da Psicologia, aconselha a que os pais evitem vocabulário difícil quando estão a falar para crianças em idade de pré-escolar ou a frequentar o ensino primário. “O ideal é falar de pessoas boas e más, sempre na lógica de que as pessoas não nascem más mas que há algo na história de vida dessas pessoas que as levou para esse extremo”. E questionados sobre as motivações dessas pessoas más, os pais podem “assumir que é muito difícil perceber o que está por detrás de tudo isto, que eles próprios não entendem. Ser genuíno é muito importante”.

Também Filipa Silva, psicóloga clínica e formadora, começa por dizer que é preciso “adaptar o discurso”. “Até aos seis anos devemos explicar, contrariamente a alguns livros de histórias encantadas, que nem toda a gente é boa e que nem todos os fins de história são felizes. E isso não tem mal nenhum”, assegura a psicóloga, acrescentando que “dos seis aos 10 anos, ainda numa fase da infância, podemos começar a usar a palavra ataque e explorar o que é isto do ataque. Da pessoa que não está bem e que planeia fazer mal aos outros”. Isso, remata a Filipa Silva, “sem nunca fazer associações a etnias, nem religiões, nem nacionalidades.” A partir dos 11 anos, “aí já podemos elaborar a ideia de terrorismo porque já vão perceber os conceitos”.

Um dos conceitos que as crianças devem aprender desde cedo é o da maldade, e também têm de perceber que há limites e que todos os atos têm consequências nos outros, sublinha a docente da Universidade do Porto, Isabel Abreu-Lima. “Tem de se explicar que existe maldade, que há pessoas, de facto, más e que causam sofrimento nos outros, que há pais que ficaram tristes e meninos que morreram, mas que também há muitas pessoas boas e que isso é o mais frequente.” Ou seja, até aos seis ou sete anos de idade o melhor mesmo, destaca a psicóloga, é dar uma “explicação simples e linear de que há pessoas más” pois a criança “não vai entender o que é o terrorismo”.

Abordar o assunto pela tónica de que “a maldade existe e que o mundo também é feito de pessoas más” é a melhor solução também na opinião do pedopsiquiatra Pedro Pires. Quanto a uma explicação mais elaborada, essa só deve chegar mais tarde. “A partir dos 10 anos a explicação pode ir até onde o pai ou a mãe sabe que vai a maturidade do filho.”

Para Patrícia Câmara, mais do que dizer que são más pessoas, pode-se dizer que são “pessoas que esqueceram que são pessoas que não aguentam que os outros sejam felizes”.



3. Explicar só depois das crianças perguntarem ou explicar mesmo sem haver perguntas? Procurar perceber o que a criança quer saber. “Menos é mais”.

O pedopsiquiatra acha que a explicação só deve chegar caso a criança pergunte. Já a psicóloga clínica Filipa Silva considera que no caso das crianças até aos seis anos “devemos observar e ver se têm algum tipo de alteração de comportamentos ou se abordam o assunto para não introduzirmos conteúdos precocemente sem necessidade”.

Para Inês Marques, da Oficina da Psicologia, “um bom princípio é, ainda antes de responder às questões, perguntar à criança ou pré-adolescente o que já sabe, o que já ouviu falar e o que gostava de saber mais”. Desta forma, acrescenta, a mãe ou o pai poderão “adequar o conteúdo e a quantidade de informação, assim como a linguagem”.

Já Patrícia Câmara responde com cautela, afirmando que “conhecendo os nossos filhos e se sabemos que ficam mais impressionados com o tema devemos falar, mesmo que eles se calem. Devemos gerir o assunto de acordo com o tipo de criança que temos e a idade, mas sobretudo tentando não minimizar mas, por outro lado, não tornando o assunto demasiado próximo”.

4. Como evitar que as crianças fiquem com medo? Dizendo que há mais pessoas boas do que más.

Sem esconder os próprios receios — “porque o medo é uma emoção que surge para nos proteger mas que muitas vezes é ativado em situações não reais” –, os pais devem “passar, na medida do possível, confiança e segurança aos filhos”, sublinha a psicóloga Inês Marques, e, para tal, devem insistir na ideia de que “a maioria das pessoas é boa e não usa violência e que este grupo de pessoas más é uma minoria e que estes atentados são circunscritos”.

Também a psicóloga Filipa Silva sublinha a importância de os adultos se acalmarem antes de falar com os filhos. “Importa primeiro regular as nossas próprias emoções e então mais calmos podemos falar com as crianças. Se estamos a tentar acalmar as crianças e não estivermos tranquilos elas vão sentir isso”, começa por dizer Filipa Silva, para logo acrescentar que “é preciso dizer que há mais pessoas boas do que más”. Além disso, “vale a pena muitas vezes pegar no argumento de que estes atentados são distantes e até se pode mostrar no mapa. Se a distância não puder ser usada como argumento de segurança, podemos pôr o foco nas figuras policiais e dizer que o senhor mau já foi apanhado”. Questionados sobre a possibilidade de voltar a acontecer uma situação parecida, os pais devem dizer a verdade: “pode acontecer, mas é pouco provável”.

Desde logo “os pais têm de estar calmos e não passar o nervosismo porque a criança fica mais aflita com a reação dos pais do que com o acontecimento em si”, frisa o pedopsiquiatra Pedro Pires, que insiste na ideia de que não se deve gerar alarmismo. “Não podemos passar a ideia de um mundo perigoso porque isso pode criar na criança um medo excessivo e generalizado. Os pais devem dizer que há de facto perigos, mas que, de um modo geral, o mundo não é perigoso.” E na mesma onda, Isabel Abreu-Lima sublinha a importância de não passar a ideia de que “o mundo e a vida são negativos e que não há nada a fazer contra estes atentados”. “A mensagem deve ser sempre de esperança.”

“É importante passar a mensagem às crianças que, aconteça o que acontecer, há sempre alguém e que mesmo que estejam sozinhas vai sempre haver alguém que vai ajudar, uma mão que vai aparecer. E que essas mãos, às vezes, vêm de dentro de nós, da força interna das coisas boas que vivemos”, aconselha a psicóloga Patrícia Câmara.

5. Qual o controlo em relação às imagens do atentado? Pais devem controlar o acesso às imagens do atentado.

Na opinião de Inês Marques, os pais devem “tentar que as crianças não tenham demasiada exposição às imagens e vídeos porque as crianças podem não ter maturidade suficiente para gerir essas imagens violentas”. Também Filipa Silva alerta que “é preciso ter cuidado com o tipo de imagem a que as crianças têm acesso. A criança pode ver uma foto, não tem de ver 10”.

Também o pedopsiquiatra do Garcia de Orta não tem dúvidas que “a criança deve ser protegida dessas imagens” que vão sendo divulgadas dos momentos que sucederam à explosão da bomba artesanal. “Não é expondo a realidade crua que faz com que as crianças tenham noção da realidade.”

“A gestão das imagens deve vir acompanhada da gestão de tudo o resto. A exposição às imagens oferece um nível de crueldade às crianças que não há necessidade”, defende a psicóloga Patrícia Câmara.



6. Devo deixar a minha filha ou o meu filho ir ao concerto da Ariana Grande em Lisboa? Não há decisões certas, nem erradas.

Para o pedopsiquiatra Pedro este atentado não deve fazer os pais mudarem de ideias “porque o atentado não teve a ver com a Ariana Grande. O que se passou foi a utilização de um acontecimento”, embora “tenham o direito de ter receio e não querer que os filhos vão. E aí devem ser francos”. O médico deixa contudo claro que “reforçar a segurança só reforça a insegurança. O ideal é agir de forma natural”.

Também Filipa Silva sublinha que “os pais têm total legitimidade de ficar preocupados e que não há escolhas certas nem erradas” e nesse sentido podem dizer que “neste momento, face à proximidade deste atentado, não se sentem à vontade para ir ao concerto. É como se fosse uma ferida que ainda está a sarar”. Porém, acrescenta, “há um princípio importante: quando começamos a fortalecer o medo e contornar questões eventualmente perigosas, começamos a encher um balão e se começamos a contornar tudo o que possa envolver perigo voltamos à era em que voltamos a ter crianças em casa”. E, por isso, na opinião desta psicóloga a abordagem, perante a insistência da criança ou pré-adolescente, pode ser outra: “fico mais intranquilo do que estava, mas se queres ir vamos porque se não vamos agora não vamos a mais nenhum concerto, nem tínhamos ido a Fátima ver o Papa”.
Patrícia Câmara é igualmente da opinião que “reiterar o medo é dar força à parte maligna” e, por isso, “escondermo-nos em bunkers não é solução”, até porque é preciso saber lidar com a “imprevisibilidade da vida”, sendo certo que a última decisão caberá sempre aos pais.

“Manter as nossas rotinas é importante”, defende Inês Marques. E caso os pais sejam questionados sobre a hipótese de vir a acontecer um atentado como o que teve lugar em Manchester, devem ser “sinceros” e dizer que “pode acontecer, embora a probabilidade de acontecer seja reduzida”.

Já a docente da Universidade do Porto, Isabel Abreu-Lima, vestindo a pele dos pais diz que “tentaria não tomar decisões já e abriria a porta para uma reflexão, tentando que a decisão fosse partilhada com a criança”. “Adiar a decisão é o mais sensato porque em cima do acontecimento será sempre não”, afirma, enfatizando que “a decisão diz respeito aos pais” e que eles “têm de ser soberanos”.


O Psicólogo Vítor Cotovio explica os cuidados a ter quando se aborda o tema com os mais novos.







Fonte:
Observador (Adaptado do artigo original)



27 de agosto de 2016

O QUE AS NOTÍCIAS SOBRE VIOLÊNCIA ESTÃO A FAZER CONNOSCO

A sensação de ansiedade está a crescer cada vez mais num mundo dominado pelos meios de comunicação. Saiba o que a constante observação destas notícias causa em nós e como devemos agir.




A exposição exagerada de notícias violentas através dos meios de comunicação está a deixar-nos divididos entre ficarmos anestesiados e insensíveis ao tema, ou com uma ansiedade crescente e num estado quase depressivo causado pela impotência perante tantos acontecimentos negativos. É indiscutível que os meios de comunicação de massa tornam o acesso às informações de todas as partes do mundo praticamente instantâneo, mas como é que lidamos com todas as notícias, especialmente as sobre violência?

O crime desperta curiosidade por apresentar uma ameaça. Os meios de comunicação exploram essa fragilidade humana, estimulando a sensação de insegurança. A televisão tornou-se um fenómeno em massa, assim como a alta taxa de criminalidade e, com isto, também cresce a sensação de medo e insegurança. A curiosidade pelo crime e as suas possíveis consequências acabam por ser uma das causas de uma nova cultura de violência, que aparece como algo normal e que faz parte do quotidiano. Tudo aquilo que vemos na televisão acaba por nos influenciar e ao vermos tantas notícias sobre atentados terroristas, catástrofes naturais, tiroteios, assaltos, mortes, etc acabamos por nos sentir cada vez mais inseguros, pois acabamos por ver sempre em maior quantidade aquilo que se passa de pior no mundo, do que aquilo que se passa de bom.

Um grupo de investigadores da Universidade de Bradford, em Inglaterra relatou num congresso de psicologia em 2015 que a exposição a imagens violentas nas redes sociais pode causar sintomas semelhantes ao transtorno de stress pós-traumático. Esse transtorno é definido como uma reacção emocional persistente a um evento traumático que trouxe grande impacto na vida de uma pessoa. Os pesquisadores da universidade conduziram um estudo com 189 voluntários, que foram expostos a imagens de eventos violentos, como o ataque de 11 de setembro, tiroteios em escolas e ataques suicidas de homens-bomba.

A análise mostrou que 22% dos participantes ficaram significativamente impressionados pelo que viram. O estudo também mostrou que quem consome este tipo de notícias com mais frequência sofre maior impacto do que aqueles que têm pouco contacto com essas imagens. Os investigadores também observaram que os participantes mais extrovertidos ficaram mais impressionados com as notícias.


O que fazer para não ficar depressivo depois de ver notícias sobre violência?

A psicóloga e directora do departamento de Transtornos de Ansiedade da Universidade de Columbia (EUA) Anne Marie Albano sugere diminuir o tempo de exposição aos meios de comunicação, de forma a equilibrar o mundo real com as informações que são sensacionalistas. Já Martin Seif, psicólogo especializado em transtornos de ansiedade, explica que os seres humanos são péssimos a analisar probabilidades e riscos. Quem tem medo de viajar de avião acaba por se esquecer que este é um dos meios de transporte mais seguros do mundo, pois o medo é sempre maior do que a lógica.

Saber que o mundo é assustador não significa viver com medo. A nossa vida está longe de ser livre do medo, assim como, livre de perigos e ameaças, porém, não podemos permitir que o que vemos na televisão ou redes sociais influencie a nossa vida a ponto de pararmos de viver, a ponto de guardarmos sonhos (como uma viagem) que gostaríamos de realizar ou de nos impedir de promover uma mudança. Não devemos nos preocupar com o que ainda não aconteceu, mas procurar sim evitar situações que possam nos colocar em risco e, até mesmo, nos proteger do perigo. Tudo, porém, sem permitir que o medo e a insegurança tome conta de nosso ser e do que somos.

Há que proteger também as crianças deste fenómeno, porque as crianças sentem medo, como um efeito imediato muito frequente, causado pela apresentação da violência nos meios de informação. O mesmo se passa com a violência verbal. Os barulhos violentos, quer sejam ou não acompanhados de imagens violentas, podem provocar um choque nervoso. A maneira de apresentar a violência (cena realista, grandes planos), o facto de se desencadear num contexto conhecido pela criança ou em condições inesperadas aumentam o risco de traumatismo (fadiga psíquica, nervosa, pesadelos e insónia). Poderá também ter efeitos a longo prazo. Há tantas razões para nos preocuparmos com as crianças que não ficam assustadas com a violência como as que ficam.

A prevalência da violência na sociedade é um problema complexo que não será resolvido facilmente. Investigadores referem constantemente que a violência nos media é apenas uma manifestação do grande fascínio da sociedade pela violência. Contudo, a violência nos media não é apenas um reflexo da violência na sociedade, é também um contributo.


Fonte: MustStrazzera