Em algum momento da vida, quase todos nos interrogamos sobre o motivo pelo qual determinadas pessoas se tornam vítimas de um crime, enquanto outras, aparentemente em circunstâncias semelhantes, passam despercebidas. Será apenas uma questão de azar? Estará tudo dependente da presença de um indivíduo mal-intencionado? Ou existirão outros fatores que ajudam a compreender por que razão algumas situações evoluem para um ato criminoso?

Na área da
criminologia e da prevenção do crime, existe um modelo simples, mas
particularmente útil, conhecido como Triângulo do Crime. Segundo este modelo,
para que um crime aconteça, tendem a estar presentes três elementos essenciais:
a vontade, a capacidade e a oportunidade.
Naturalmente,
nenhum modelo consegue explicar todas as situações da vida real. No entanto, a
simplicidade deste triângulo permite-nos compreender algo importante: a
segurança pessoal não depende apenas daquilo que os outros decidem fazer, mas
também da forma como nos relacionamos com o ambiente que nos rodeia e das
escolhas que fazemos diariamente.
Mais do que
explicar o comportamento criminoso, este modelo convida-nos a refletir sobre
aquilo que está ao nosso alcance influenciar.
A vontade: querer cometer o crime
A vontade
representa a intenção ou motivação para cometer um ato criminoso. As razões
podem ser muito diversas. Algumas pessoas procuram obter vantagens económicas.
Outras agem por raiva, ressentimento ou desejo de vingança. Há quem seja
influenciado pelo consumo de álcool ou outras substâncias, quem ceda à pressão
do grupo ou quem desenvolva, ao longo do tempo, uma atitude oportunista ou
predatória.
Independentemente
das causas, importa reconhecer uma realidade simples: não podemos controlar a
vontade dos outros. Não nos compete mudar as escolhas de terceiros nem
antecipar todas as suas intenções.
Aceitar esta
realidade não significa caminhar pela vida à espera do pior. Significa apenas
reconhecer que nem todas as pessoas respeitam os mesmos princípios e que
algumas estarão dispostas a aproveitar distrações, vulnerabilidades ou
circunstâncias favoráveis para atingir os seus objetivos.
Desenvolver
uma perceção equilibrada do mundo não implica ver ameaças em todo o lado, mas
também não exige acreditar que todas as pessoas agirão sempre de forma
responsável. Talvez uma das maiores contribuições deste modelo seja
precisamente recordar-nos que a segurança pessoal não depende apenas de desejar
que nada aconteça. Exige, em certa medida, compreender a realidade tal como ela
é.
A capacidade: poder transformar a intenção em ação
Ter vontade
não é suficiente. Para que um crime seja cometido, é geralmente necessário
possuir alguma forma de capacidade para o concretizar.
Essa
capacidade pode assumir muitas formas diferentes. Pode traduzir-se em força
física, experiência criminal, conhecimentos técnicos, acesso a ferramentas
específicas ou mesmo competências sociais que permitam manipular, enganar ou
ganhar a confiança de outra pessoa.
Um burlão,
por exemplo, pode não necessitar de qualquer superioridade física, mas revelar
grande habilidade para explorar emoções humanas, criar urgência ou despertar
falsas expectativas. Um ladrão poderá conhecer técnicas que lhe permitam abrir
um veículo em poucos segundos. Um agressor pode procurar pessoas que aparentem
estar distraídas, isoladas ou emocionalmente vulneráveis.
Esta
perspetiva ajuda-nos a compreender que a prevenção do crime não depende apenas
de aumentarmos as nossas capacidades de defesa física. Em muitos casos, passa
igualmente por dificultar a tarefa de quem procura explorar fragilidades,
surpreender uma vítima ou agir sem ser detetado.
Por vezes,
pequenas medidas podem fazer uma diferença significativa. Uma comunicação
assertiva, uma postura mais confiante, a definição clara de limites pessoais ou
a adoção de comportamentos que transmitam atenção e presença podem aumentar
substancialmente o esforço necessário para que alguém concretize uma intenção
criminosa.
A oportunidade: quando as circunstâncias parecem
favoráveis
Dos três
elementos do triângulo, a oportunidade é provavelmente aquele sobre o qual o
cidadão comum consegue exercer maior influência.
A
oportunidade surge quando uma pessoa motivada e capaz encontra circunstâncias
que lhe parecem favoráveis para agir, com reduzido risco de ser identificada,
interrompida ou responsabilizada.
Os exemplos
são inúmeros e fazem parte do quotidiano. Um computador portátil deixado
visível no banco traseiro de um automóvel, a utilização constante do telemóvel
enquanto se caminha por uma zona pouco movimentada, a divulgação excessiva de
informações pessoais nas redes sociais ou a abertura da porta de casa sem
confirmar a identidade de quem está do outro lado são situações que podem
aumentar oportunidades para determinados tipos de crime.
Importa
fazer aqui um esclarecimento importante. Reduzir oportunidades não significa
responsabilizar vítimas pelo comportamento dos agressores. A responsabilidade
por qualquer ato criminoso pertence sempre a quem o decide praticar.
No entanto,
reconhecer que determinados comportamentos podem facilitar a ação de terceiros
permite-nos adotar estratégias simples de redução de risco. Tal como fechamos
as janelas quando começa a chover ou utilizamos o cinto de segurança antes de
iniciar uma viagem, também podemos desenvolver hábitos que diminuam a exposição
a situações potencialmente problemáticas.
A segurança constrói-se nas pequenas escolhas
Muitas das decisões que tomamos ao longo do dia parecem insignificantes. Escolher um percurso em vez de outro, guardar o telemóvel no bolso enquanto caminhamos, informar alguém sobre a hora prevista de chegada a casa ou prestar atenção ao ambiente que nos rodeia são gestos tão banais que raramente lhes atribuímos importância. Contudo, a segurança pessoal constrói-se frequentemente através destas pequenas escolhas.
O Triângulo
do Crime recorda-nos que, embora não possamos controlar as intenções dos
outros, continuamos a ter alguma influência sobre o contexto em que nos
movemos. Podemos reduzir distrações, reforçar limites, proteger melhor a nossa
privacidade, procurar apoio quando necessário e aprender a reconhecer sinais
que despertam desconforto ou suspeita.
Nenhuma destas medidas oferece garantias absolutas. A vida continuará a ser imprevisível e existirão sempre situações que escapam ao nosso controlo. Ainda assim, desenvolver hábitos discretos e consistentes pode contribuir para dificultar a convergência entre vontade, capacidade e oportunidade.
Quebrar um dos lados do triângulo
Uma das
ideias mais interessantes deste modelo reside precisamente na sua simplicidade.
Para diminuir significativamente a probabilidade de um crime ocorrer, nem
sempre é necessário eliminar todos os fatores envolvidos. Muitas vezes, basta
enfraquecer um dos lados do triângulo.
Não podemos
impedir que determinadas pessoas tenham intenções criminosas. No entanto,
podemos reduzir oportunidades, aumentar a dificuldade de execução de
determinadas ações e criar condições menos apelativas para quem procura um alvo
fácil.
Uma boa
iluminação exterior, sistemas de segurança adequados, maior cuidado com a
informação pessoal que partilhamos, competências de comunicação assertiva ou a
capacidade de escutar a própria intuição quando algo não parece correto são
exemplos de pequenas medidas que podem contribuir para esse objetivo.
Talvez seja
precisamente aqui que este modelo revela a sua maior utilidade. Em vez de nos
colocar numa posição passiva perante o risco, recorda-nos que continuamos a
possuir uma margem de influência. Não controlamos as intenções dos outros, mas
podemos desenvolver hábitos, competências e atitudes que tornem determinadas
situações menos apelativas para quem procura uma oportunidade fácil.
Não se trata
de viver em permanente estado de alerta, nem de desconfiar sistematicamente de
quem nos rodeia. Trata-se, antes, de cultivar uma atenção serena, semelhante à
que dedicamos a outros aspetos importantes da nossa vida. Porque cuidar da
nossa segurança é, em última análise, uma forma de cuidar da nossa liberdade,
da nossa tranquilidade e das pessoas que nos são próximas.
Compreender para agir
O Triângulo
do Crime não oferece fórmulas mágicas nem garantias absolutas. O seu valor
reside sobretudo em ajudar-nos a compreender que muitos acontecimentos não
surgem do nada. Resultam frequentemente do encontro entre uma intenção, uma
capacidade e uma oportunidade.
Conhecer
este modelo permite-nos olhar para a segurança pessoal de uma forma menos
fatalista e mais participativa. Sem alimentar receios desnecessários,
convida-nos a reconhecer que existem pequenas escolhas, atitudes e hábitos que
podem contribuir para reduzir riscos e aumentar a nossa margem de segurança.
Talvez a
questão mais útil não seja perguntar: «Serei capaz de reagir se um problema
surgir?» Talvez seja mais interessante perguntar: «O que posso fazer hoje para
tornar menos provável que esse problema venha a acontecer?»
No âmbito do programa Dynamic Self Defense, temos vindo a refletir precisamente sobre esta
perspetiva. Compreender como surge uma oportunidade criminal é apenas uma parte
do caminho. A outra passa por desenvolver formas de pensar, agir e estar que
favoreçam decisões mais seguras e uma relação mais consciente com o mundo que
nos rodeia. Procuraremos explorar essa ideia num próximo artigo.
Porque,
muitas vezes, a segurança não se constrói em momentos extraordinários.
Constrói-se discretamente, nas escolhas quase invisíveis que fazemos todos os
dias e às quais raramente damos importância, até ao momento em que percebemos o
valor que realmente tinham.

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